quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Testamento

Neste feriado de finados, olhando para aquele céu nublado (típico de dias fúnebres como esse) fiquei pensando e me perguntando: E se eu morrer hoje? O que eu vou deixar na terra?
Parece perguntas idiotas, sem nexo. Mas todos nós já pensamos sobre isso. Fiquei muito intrigado com isso, e navegando pela "net" encontrei esse poema de Manuel Bandeira que me deu uma ideia de como não escrever um testamento.


Testamento
Manuel Bandeira




O que não tenho desejo
É o que melhor me enriquece
Tive uns dinheiros - perdi-os...
Tive uns amores - esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.
Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.
Gosto muito de crianças:
Não tive um filho meu.
Um filho!...Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.
Criou-me, desde eu menino
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!
Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei um bom grado a vida
Na luta em que não lutei!


(29 de Janeiro de 1943)

Poema extraído do livro "Antologia Poética - Manuel Bandeira", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 2001, página 126.


"Na luta que não lutei"...


Parece ser um grande tapa na cara de todos nós: Burguesinhos metidos que reclamam de tudo e não vêem a educação a boa educação que temos, a nossa família que apesar das diferenças nos ama muito, os nossos amigos (que as vezes são muito "FDP´s", mas são legais), os professores... (...não muito... brincadeira professores, amamos vocês!), nossa cidade (que tirando o valão, a favela, a prefeitura, os traficantes, as obras, o tormento, a falta de educação, o trânsito, os "aba reta", os "cristal graffiti" e os ônibus, ta bom.) e etc.
E sabe o que eu aprendi?
Para de reclamar e VIVA a vida que você tem! Ningúm quer escrever no seu testamento aquilo que desejou fazer e não fez, ou sonhos que não relizou.
Querer mudar o mundo não é uma fantasia, mas é uma realidade que bate em nossos pensamentos.
Eu prefiro morrer pobre, mas sem perder minha dignidade, meu heroísmo, minha coragem, minha vontade que tive de viver e melhorar esse mundo, em uma sepultura onde todos choram minha morte e não minha vida.
E você?

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